O investidor perfeito
20 de março de 2017 Tweet por Vittorio Mauri, sócio da U-Start Há alguns milhares de anos, os romanos diziam que “Pecunia non olet” (“o dinheiro não tem cheiro”), significando que o dinheiro não se diferencia de outro dinheiro, pois vale exatamente o seu valor nominal. Se aplicássemos esse mesmo conceito à indústria de capital de risco (VC) hoje, como poderia um investidor ser melhor que outro, se basicamente todos oferecem a mesma commodity?
Bem, na minha experiência, o dinheiro pode não ter cheiro, mas as pessoas certamente têm. São as pessoas, e não o dinheiro, que mudarão o futuro da sua empresa. As pessoas podem facilitar o seu trabalho ou transformá-lo num verdadeiro pesadelo. As pessoas podem abrir a sua rede de contactos e ajudá-lo a fechar um contrato.
As pessoas podem arranjar-lhe um comprador ou levá-lo até uma OPV (Oferta Pública de Venda). Mas as pessoas também são aquelas que não respondem aos seus e-mails, que rejeitam o seu projeto sem dar explicações ou dando muito poucas, ou que redigem contratos e até tomam medidas legais contra si (cuidado com este último ponto). Portanto, o VC é a indústria onde pessoas e dinheiro caminham lado a lado mais do que em qualquer outra.
Como investidor, as pessoas falam consigo porque você tem dinheiro, mas o seu dinheiro, sem você, vale muito pouco. É a combinação de recursos humanos e capacidades financeiras que cria o investidor perfeito. E embora o que tenho observado até agora não seja um bom benchmark – em alguns casos, nem mesmo em fundos de VC de topo –, gosto de pensar nos investidores como aprendizes constantes numa busca por uma perfeição hipotética, tal como os empreendedores que são continuamente chamados a julgar.
Ainda assim, muitos dos investidores que conheci até agora estavam longe da perfeição, mesmo aqueles que considero como referência profissional. Este artigo está longe de ser um “j’accuse” dirigido a alguém, mas gostaria de recordar alguns episódios e exemplos que possam explicar por que razão a perfeição no VC é frequentemente uma ilusão.
- A marca é tudo. As marcas têm um peso enorme no VC, tal como em muitas outras indústrias. Quem não gostaria de ter a Sequoia ou a Andreessen Horowitz como investidores?
No entanto, poucas são as marcas deste nível no VC. Para todas as outras, quanto maior a dependência da marca, maior o risco de ficar sentado à espera que os investimentos apareçam sem esforço de prospeção.
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E este é um erro surpreendentemente comum no VC. Os investidores são abordados em todos os ambientes, por todos os tipos de pessoas, e precisam de ser suficientemente humildes e ambiciosos para detetar oportunidades de negócio mesmo onde ninguém mais está a olhar. Já vi fundos de VC proeminentes fecharem as portas a oportunidades de negócio porque não conseguiram fazer o esforço intelectual de ir além das aparências. Se a sua marca é o seu foco, faça uma tatuagem de Berkeley e cale-se!
- Enganar em vez de tratar. Quando investem numa empresa, os investidores devem decidir qual é o propósito dos acordos que estão a assinar. Querem construir uma relação sólida de longo prazo ou simplesmente extrair o máximo do investimento, independentemente do resultado?
Tenho visto investidores incluir cláusulas ardilosas nos seus acordos para garantir a máxima proteção do seu capital. Mas as coisas não funcionam assim. Quando você engana a equipa, está a prejudicar a empresa e as consequências não tardarão a voltar-se contra si.
Uma estratégia que vejo frequentemente é: assinamos um term sheet limpo, eu abrande as negociações, você fica sem caixa e começa a poupar no marketing, eu exijo cláusulas mais rigorosas devido a resultados abaixo do orçamentado, e quanto mais medo você tiver de ficar sem dinheiro, mais fácil será aceitar as minhas cláusulas duras. Já vi vários fundos jogarem este jogo, mas não há necessidade de comentar mais – se quer ser um pirata, vá para as Caraíbas, meu caro!
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- Jogar limpo e não pagar as contas. O VC é um jogo para jogadores duros. Se tem medo de ver o seu dinheiro desaparecer, está na indústria errada. Isso acontece todos os dias, a toda a gente, em todo o lado.
No entanto, o que fazer quando uma empresa não corresponde às suas expectativas? Essa é uma escolha sua. Já vi VCs renomados tentarem enganar os seus coinvestidores para tirar proveito da situação.
“Eu sou o grande chefe aqui, paguem-me a minha parte!” Pode certamente fazê-lo, mas tenha em mente que este é um mundo pequeno e os rumores espalham-se rapidamente. “Descanse em Paz” ao investidor que traiu os seus parceiros numa operação de saída. O karma não o perdoará! Quando começa a trabalhar em VC, é subitamente sobrecarregado por expectativas alimentadas por histórias incríveis de sucesso.
Histórias como a da Snapchat e muitas outras traduzem-se em múltiplos incríveis e IRRs (Taxas Internas de Retorno) astronómicos para os fundos que estiveram por trás delas. E todos aqueles que investiram nelas tornam-se subitamente estrelas, entrevistados por revistas e procurados por novas startups como gurus do VC. Um investidor perfeito que transformou a Whatever Inc. numa empresa avaliada em mil milhões de dólares.
Mas tudo o que mencionei acima parece-me claramente um comportamento errado. Deveria ser senso comum agir exatamente da maneira oposta. Então, como pode uma indústria ser tão cruel a ponto de aceitar comportamentos tão diferentes das mesmas pessoas?
Pensei nisso repetidamente, até finalmente perceber que o sucesso é apenas uma pequena parte do jogo. Os comportamentos descritos acima pertencem ao campo de batalha sujo das expectativas não cumpridas, que ocupa uma grande parte do tempo de um investidor de venture capital. É nesse espaço que a diferença entre bons e maus investidores realmente emerge.
Nesse contexto, os valores muitas vezes sucumbem perante os interesses, arriscando apenas o próprio investidor. Porquê? Porque o Capital de Risco é a terra do desconhecido. Uma terra dominada por criaturas mitológicas, com unicórnios a surgirem em arco-íris gigantes da China aos EUA e dragões a cuspir fogo da Alemanha à Espanha.
Num ambiente desses, só pode sucumbir diante da supremacia dos mitos e lendas. E se quer encontrar criaturas lendárias como a Snapchat, tem de ser uma você mesmo.
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